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Branca de Neve



 Uma princesa, cabelos pretos, lábios vermelhos, pele branca como a neve; uma madrasta, um espelho e uma maçã envenenada; sete anões e um príncipe encantado. Aposto que esses poucos elementos já evocaram em sua memória todo o enredo de um dos contos de fadas mais conhecidos:  Branca de Neve.

Neste vídeo da Rô você confere uma adaptação desta famosa história dos irmãos Grimm.


As origens


"A jovem escrava" - Giambattista Basile


Em sua tese de doutorado, Denise Loreto de Souza (2019) nos explica que o primeiro registro conhecido desta história é o conto chamado "A jovem escrava", que faz parte do livro Lu cunto de li cunti (ou Pentamerone), escrito pelo napolitano Giambattista Basile e publicado postumamente, por sua irmã.O conto, recolhido da tradição oral, é considerado um ancestral de "Branca de Neve", por conter elementos que mais tarde estariam presentes na famosa história, como o ciúme, a inveja e a disputa pela beleza entre duas mulheres. Ele também contém elementos que remetem a outras histórias como a de Cinderela e a da Bela Adormecida. Acredita-se que pela prática de "contar oralmente", a história de "A jovem escrava" possa ter sido recontada e recriada atravessando fronteiras, sofrendo modificações e transformando-se em histórias independentes.No entanto, como esclarece a pesquisadora, apesar de ser um ancestral de "Branca de Neve", o texto de "A jovem escrava" não serviu como texto fonte para as posteriores reescritas. Escrito num dialeto que poucos conheciam, até mesmo na península italiana, o livro só se tornou mais popular após sua tradução para o alemão, em 1846, com um prefácio de Jacob Grimm. A tradução para o italiano só seria publicada em 1925, por Benedetto Croce.


"Branca de Neve" - irmãos Grimm

 

Snow White and The Seven Dwarves.
Cartão postal ilustrado por Jenny Nystrom -
Biblioteca Nacional da Noruega. 
Disponível em Wikimedia Commons
Foram, portanto, os irmãos Grimm que primeiro registraram a história chamada "Branca de Neve" (Schneewittchen, em alemão) da forma como a ouviram. Publicado em 1812, no livro Contos Infantis e Domésticos, pelos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm, o conto sofreu pequenas modificações feitas pelos próprios irmãos nas edições que se seguiram. Ao todo foram 7 edições deste livro, sendo a última publicada em 1857.  Procurando adequar os contos ao público infantil (preocupação que não existia na primeira versão, de 1812), os irmãos Grimm retiraram das histórias as passagens mais cruéis e violentas. Um exemplo disso pode ser visto em  Branca de Neve: na primeira versão (1812) é a mãe de Branca de Neve que sente inveja de sua beleza e manda matá-la e não uma madrasta, como no texto de 1857.

 

Curiosidades

 

O Museu Diocesano de Bamberg, no sul da Alemanha, exibe a lápide de uma baronesa que acredita-se ter servido de inspiração para a história de "Branca de Neve". Maria Sophia von Erthal cresceu em um castelo na cidade de Lohr am Main e morreu em 1796. A cidade fica a apenas 50 km de onde viveram por muito tempo os irmãos Grimm e existem alguns paralelos entre sua vida e a história do conto: o pai de Sophia se casou novamente após a morte da esposa e a madrasta de Sophia era conhecida por ser dominadora; o pai de Sophia era dono da fábrica de espelhos da cidade; assim como no conto, à distância de sete colinas da cidade e na mina de fato trabalhavam anões e crianças. O fim de sua vida, no entanto, não foi como no conto: ela morreu cega e solteira em um convento aos 71 anos.

 

Adaptações brasileiras e sugestões de leitura

 

No Brasil, o conto "A Branca de Neve", dos irmãos Grimm, foi adaptado com o título "Branca como a Neve" na obra Contos da Carochinha, de Alberto Figueiredo Pimentel (1894). O país acabara de se tornar uma República, pretendia modernizar-se, investir em educação e Figueiredo Pimentel foi o primeiro a se preocupar em tornar a literatura mais acessível, abrasileirando a linguagem e as histórias europeias para aproximá-las da realidade das crianças brasileiras.

Também Monteiro Lobato, alguns anos mais tarde, mostrou essa preocupação. Em Reinações de Narizinho o autor mescla contos tradicionais com  o ambiente local, do sítio, e introduz dados novos da história, como aponta Souza (2019). Um exemplo disso é que no livro, Branca de Neve e outras princesas são convidadas à uma festa no sítio e Branca dá de presente à Emília um espelho.

Na atualidade, destacamos ainda duas interessantes adaptações/recriações da história:

 

  • O fantástico mistério da Feiurinha, de Pedro Bandeira.

Ganhador do Prêmio Jabuti, em 1986, o livro se passa vinte cinco anos após o "viveram felizes para sempre" das histórias das princesas. Nele, Branca de Neve é agora Branca Encantado, pois se casou com o príncipe e, juntamente com as outras princesas, sai em busca da princesa Feiurinha. Uma história cheia de aventura, intertextualidade e criatividade.

Para saber mais, acompanhe uma recente entrevista sobre o livro com o autor, em formato de podcast.

 

  • Branca de Neve e as sete versões, de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, ilustrada por Bruna Assis Brasil. Companhia das Letrinhas, 2016.


Esta divertida releitura mostra como tudo pode ser diferente numa história se alterarmos um pequeno detalhe. É assim que o livro dá ao leitor a possibilidade de transitar por finais bem diferentes para o famoso conto.

 

Cinema

 

Impossível pensar nessa história e não recordar a adaptação de Walt Disney, que em 2017 completou 80 anos. Lançado em 1937, Branca de Neve e os sete anões foi o primeiro longa-metragem de animação da história e rendeu a Walt Disney um Oscar Honorário - na época em que foi lançado, não havia ainda uma categoria específica para filmes de animação. O prêmio tinha um design especial, homenageando o conto: uma estatueta maior, acompanhada de sete réplicas pequenas.

A animação de grande sucesso foi criada quadro a quadro, contabilizando mais de 2 milhões de desenhos e esboços. Entre os 750 artistas que trabalharam na produção, vale destacar o empenho de centenas de mulheres, as coloristas e arte-finalistas responsáveis pelo colorido do filme. Além disso, a atriz Hedy Lamarr, serviu de inspiração para os traços de Branca de Neve e a dançarina Marge Champion foi a modelo na qual os produtores se basearam para criar os movimentos da personagem principal e deixá-los o mais próximo possível de uma figura humana.

O filme faz várias adaptações em relação à história dos irmãos Grimm, como o destaque dado aos anões, que recebem nomes próprios e o beijo do príncipe, algo que não acontecia no conto alemão.

Para quem é amante da sétima arte e gosta de conhecer produções clássicas antigas, nossa sugestão é esta versão em cinema mudo, de 1916, disponível no Youtube com legendas em português.

 

Por Natália C. Lorevice, estagiária do SIBISC.


Referências:

 

BBC News Brasil. A história da baronesa alemã que inspirou 'Branca de Neve'. 2019. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/geral-49214137> Acesso em 13. jul. 2020

 

MAGALHÃES, Letícia. As mulheres por trás de "Branca de neve e os Sete Anões" (1937).  2017. Disponível em: <https://medium.com/cinesuffragette/as-mulheres-por-tr%C3%A1s-de-branca-de-neve-e-os-sete-an%C3%B5es-1937-524faab685de> Acesso em: 13 jul. 2020.

 

POLINI, Janaína. Na estreia de 'Branca de Neve e os sete anões', Bonequinho aplaude de pé. O GLOBO. 2018. Disponível em: <https://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/na-estreia-de-branca-de-neve-os-sete-anoes-bonequinho-aplaude-de-pe-22197135> Acesso em 13 jul. 2020.

 

SOUZA, Denise Loreto de. As faces de Branca de Neve: um estudo comparativo. Tese (doutorado). Universidade Estadual Paulista (Unesp), Instituto de Biociências Letras e Ciências Exatas. São José do Rio Preto, 2019. Disponível em: < https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/181346/souza_dl_dr_sjrp.pdf?sequence=3&isAllowed=y> Acesso em: 13 jul. 2020.

 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. Branca de Neve e os Sete Anões, marco da animação, completa 80 anos. 2018.   Disponível em: <https://ufmg.br/comunicacao/noticias/branca-de-neve-e-os-sete-anoes-marco-da-animacao-completa-80-anos> Acesso em: 13 jul. 2020.


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